O Corvo – Capítulo 3

Lunapétala caminhava sem rumo por Teldrassil. Sua mente era um turbilhão de vozes e imagens, e nenhuma fazia sentido. Ela sentia-se zonza e podia provar o próprio sangue, mas não chegava a sentir a dor física proveniente dos ferimentos ainda não curados.

 “Falhou? Falhou? Você fez mais que falhar, criança. Você envergonhou a minha família, desonrou o meu nome, e causou a morte de todos os que estavam em Cortavento. Nesse momento os orcs despejam bombas em vilarejos da Aliança porque acham que todos escondem inimigos!” Floragris gritava. Veias pareciam saltar do seu pescoço, e seus olhos só transmitiam raiva.

  “Eu sei que…”

“Sabe? Sabe o quê? Sabe que todos os seus anos de treinamento – todos os anos eu me dediquei a você pessoalmente – foram inúteis?,” Floragris parecia cuspir as palavras.  “Sabe que agora é uma inválida que nem sequer poderá segurar uma espada? Sabe que você, vivendo, arrastou pela lama um nome que o meu marido havia conseguido manter intacto ainda que para isso fosse necessário que ele morresse? Não, criança, você não sabe. Você não é uma Brancave. Você não é ladina, e você não é minha filha!”

“Mãe!” Lunapétala gritou, e o esforço fez com que ela sentisse o gosto de sangue na garganta.

“Eu amaldiçôo o dia em que meu marido trouxe você para esta casa,” rosnou Floragris, sacando uma adaga. Ela agarrou Lunapétala pelo cabelo e começou a cortar as longas mechas da jovem.

Lunapétala começou a chorar, sem reação, até que Floragris a largou. A jovem caiu no chão e contorceu-se com a dor causada pela queda. À sua volta, sujando-se na terra, jazia o seu cabelo prateado.

“Seja grata que eu a tenha permitido sair daqui com vida, mas não quero ser forçada a vê-la novamente,” disse Floragris, virando-se para entrar na casa que Lunapétala por anos havia chamado de lar. “Certamente não demonstrarei tamanha leniência mais uma vez.”

Apoiou-se em uma árvore, respirando com dificuldade, e não conseguiu impedir seu estômago de colocar pra fora todo o conteúdo. Tossiu, enojada pelo gosto amargo, mas decidiu forçar-se a chegar até Dolaanar. Lá poderia escolher um grifo que a levasse a qualquer lugar – de preferência bem longe dali.

Algumas semanas se passariam, no entanto, até que seu corpo curasse o que podia e ela achasse um local para morar.

Raros eram os elfos que visitavam a Floresta do Crepúsculo, e mais raros ainda aqueles que se aventuravam a passar a noite na Vila Sombria. Isso tornava o local ideal para quem, como ela, não quisesse ser reconhecido.

Ela tinha certeza de que Albora Ebanez, a líder da Vigília Noturna, observava cada movimento seu – os humanos e worgens locais eram bastante desconfiados em relação a forasteiros, afinal – mas a humana nunca lhe fora abertamente hostil.

A elfa, sem condições físicas de juntar-se à Vigília, usava seus conhecimentos em herborismo e alquimia para criar venenos e poções e assim pagar o aluguel de um quarto no andar superior Taverna Corvo Escarlate. Os worgens de Monte Corvo apreciavam suas habilidades, e o pagamento era bom o suficiente para permitir que Lunapétala pudesse gastar suas noites como os outros bêbados da taverna.

Ela tingira os cabelos curtos do mesmo azul que dominava a eterna noite da Floresta do Crepúsculo, e fizera um tapa olho para cobrir as cicatrizes que cercavam o olho direito. Sempre tinha consigo uma adaga pequena, e temia que nunca mais fosse utilizá-la.

Lunapétala havia sido treinada para ser uma assassina silenciosa e discreta; havia sido treinada para seduzir, amedrontar, espionar sem causar desconfiança; havia sido treinada para várias coisas, e servir como aprendiz apotecária permanentemente não era uma delas. Ainda que essa fosse uma vida tranquila e estável, a sensação de vazio e inutilidade pareciam crescer cada vez mais.

Ela não tinha um nome, não tinha um passado, e parecia não ter um futuro…

…até a noite, há alguns anos, em que um elfo decidiu passar a noite na Vila Sombria.

Vila Sombria

Vila Sombria

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Reality – 93

It was something akin to a routine, really.

She’d go to bed, she’d have trouble sleeping, she’d sigh and go to the living room so she wouldn’t disturb Lee’s sleep.

The city slept as she stared blankly out the window, hoping for sleep to come and feeling cold, quiet hours crept by. It never did, and her body always felt sore from exhaustion.

But then during a night – much like any other night – she noticed something across the street: the alarm clock read 3:41 a.m. and there was a man sitting among piles and more piles of newspaper. Fresh, plastic-wrapped newspaper ready to be delivered.

The man sitting across his motorcycle under the feeble streetlight had a newspaper in his hand and read it carefully slow. She just watched him as he licked his fingertips before turning a page; she observed as he sometimes looked around, sometimes stiffled a yawn, sometimes nodded sleepily.

At 4:03 a.m. a car came and a man stepped out to greet the other. The two talked a little, their voices echoing a little in the silent, humid street. The first man turned his bike on, climbed, and went away. The second man opened his shop’s door and struggled a little to take all the newspaper inside.

She felt sleepy all of a sudden and went back to the room.

The next day she crossed the street. She had never noticed the little cafe before, and how cozy and warm it was inside, and how the friendly barista – unlike her – had no shadows under his eyes.

She bought a newspaper and took it home to read it later, but never did.

But then it became something akin to a routine, her insomnia. She’d only be able to sleep after the newspaper delivery man had ridden away on his bike. She’d visit the cafe and greet the barista and buy a copy of the newspaper and toss it somewhere around the house where Lee would find it later. A day or a week later, but he’d always find it.

It was something akin to a routine, really, in all its simplicity.

Reality 93. Simplicity

O Corvo – Capítulo 2

“Sabe o que é dito sobre elfos noturnos que nascem com olhos dourados, criança?”

“São destinados à grandeza, mãe.”

“Precisamente. Os seus olhos tinham um tom dourado durante a sua infância… mas conforme você cresceu isso foi sumindo.”

“Então o meu destino não será mais grandioso?”

“Será se você o fizer, e você deve fazê-lo. Não só pelo seu nome, mas pela família.”

“Sim, mãe”

A verdade, ela imaginava, é que seus olhos nunca tinham sido dourados. Anos de treinamento árduo supervisionado pessoalmente pela matriarca Floragris, e agora suas mãos tremiam. Agradeceu que nenhum aliado estivesse ali para testemunhar seus temores.

Não ser vista parecera simples no papel. Na noite fria da Cordilheira das Torres de Pedra, porém, a presença da Fortaleza Krom’gar era ameaçadora: labaredas erguiam-se dos prédios metálicos, e o zepelim que sobrevoava as construções parecia um sentinela insone.

Lunapétala escondeu-se atrás de uma grande pedra e analisou o desenho do acampamento. Aparentemente, nada havia mudado desde que a Aliança mapeara o local há alguns meses. Os alojamentos e depósitos estavam nos mesmos lugares, e o mesmo número de guardas patrulhava as mesmas rotas. No entanto, era possível notar que os orcs haviam realmente baixado a guarda, talvez graças à escassez de conflitos das últimas semanas: vários sentinelas reuniam-se em volta de uma grande fogueira, jogando cartas e falando alto.

Caminhando pelas sombras, a elfa posicionou-se de modo a ver a entrada para os alojamentos, contando as fileiras de beliches a fim de estimar o número de inimigos na Fortaleza.

As mantícoras da Fortaleza agitaram-se de repente, como se sentissem que havia um intruso por perto. Não era seguro ficar muito tempo parada, então Lunapétala decidiu investigar logo o depósito de armas e suprimentos.

Um guarda, aparentemente bêbado, estava deitado à porta do depósito. Graças ao ronco alto, a elfa pôde saltar por cima dele e não se preocupar com o som dos pés tocando novamente o solo. No entanto, seu sorriso de satisfação desapareceu ao analisar o interior do local.

Caixas e mais caixas de bombas amontoavam-se e cobriam as paredes. Aquilo era armamento suficiente para fazer a Vila de Cortavento sumir do mapa! Será que era para isso que o zepelim havia sido trazido? Mas… se as bombas pudessem ser transportadas no zepelim, Astraanar seria um alvo fácil! A vila já estava sitiada e era um dos últimos refúgios do poder da Aliança em Vale Gris, e sua destruição certamente seria mais vantajosa do que a dominação da Cordilheira das Torres de Pedra!

Lunapétala começou a suar frio. Ela imaginava encontrar armas de fogo e espadas, e talvez algumas poucas bombas a serem manuseadas por um especialista. Isso era pior, muito pior. Era crucial que ela saísse dali e entrasse em contato com a AVIN o mais rápido possível.

Uma risada grossa ecoou pelo depósito, seguida de uma cantoria bêbada. A elfa xingou em silêncio. Em seu choque ao ver as bombas, esquecera de que o local também armazenava suprimentos… e que os guardas pareciam muito chegados a bebida e comida durante as horas de serviço. Ela nem havia notado, ao entrar no depósito, que um orc estava mais adentro! Um erro estúpido que um Brancave jamais deveria ter cometido.

Passos pesados se aproximavam enquanto ela procurava nos bolsos uma das poções de invisibilidade que havia trazido. Seria fácil apagar o orc, mas isso apenas denunciaria a invasão e apressaria os planos de ataque dos inimigos. Ele estava excessivamente bêbado para notá-la entre as sombras, mas seria impossível não vê-la quando passasse logo ao lado.

Com as mãos tremendo graças à adrenalina, a elfa conseguiu beber a poção antes que o orc ficasse próximo demais. Lunapétala prendeu a respiração quando o enorme guarda passou ao seu lado. Sempre mantendo o olhar no inimigo, a elfa começou a dar passos silenciosos para trás enquanto o brutamontes verde cambaleava para fora, até que ela tropeçou em algo e caiu de costas no chão.

Com o barulho, o orc parou de andar e olhou em sua direção. Em pânico, a jovem percebeu que havia tropeçado em um outro que, graças a Eluna, ainda dormia. Aproveitando-se dos últimos segundos de invisibilidade, ela pôs-se de pé e procurou onde se esconder. O orc que havia passado por ela, mesmo bêbado, agora parecia bem alerta. O guarda que antes roncava havia se posto de pé em um momento. Ela não subestimaria seus inimigos novamente.

Decidiu esconder-se entre sacos de grãos. Tão logo havia se camuflado, a invisibilidade concedida pela poção acabou. Lunapétala aguardou, tensa, alguma reação dos guardas que havia alertado com sua queda.

Para sua sorte, o orc que dormia logo à sua frente virou-se e soltou um sonoro ronco. Ela suspirou aliviada quando os dois guardas riram e afastaram-se do depósito.

Minutos passaram como horas enquanto ela esperava algum sinal de nova movimentação. Nenhum. Ainda tensa, Lunapétala moveu-se lentamente em direção à saída. Só queria sair logo dali.

De repente, ela sentiu seu pé sendo agarrado e seu corpo jogado para trás. Seu instinto imediato foi o de sacar as adagas. Ela poderia se livrar do corpo depois. Lunapétala fez o corpo girar no ar e preparou-se para enfiar as adagas no pescoço do orc, mas suas lâminas foram defletidas por uma espada. O som do choque dos metais foi ensurdecedor na noite anteriormente silenciosa. As adagas caíram no chão.

O orc, pondo-se de pé, era enorme. Seus olhos brilhavam com uma fúria sem igual, e Lunapétala não pôde evitar dar um passo para trás. Amedrontada, sua mente ficou em branco.

Ela ouviu o som de inimigos correndo para o depósito, e decidiu virar-se para correr. O orc pareceu não gostar da ideia e começou a atacar a jovem elfa com golpes vigorosos de espada. Ela agradeceu aos céus pela sua agilidade, que a permitia desviar de golpe após golpe.

Achando uma brecha nos ataques do inimigo, Lunapétala escapou do depósito e correu em direção ao penhasco. Durante a subida para a Fortaleza, ela vira enormes pedras cravadas na encosta. Essas pedras poderiam servir de apoio para seus pés ligeiros durante a descida. Se chegasse à Vila de Cortavento a tempo, poderia evacuar o local antes da chegada dos orcs – que certamente atacariam. Com a Vila vazia, eles não esperariam a investida da Aliança.

“Ainda há esperança” foi o último pensamento antes que o orc arremessasse a espada e a lâmina atravessasse o ombro direito da elfa, interrompendo seu equilíbrio e mandando-a penhasco abaixo.

“O seu olho direito foi destruído em algum impacto durante a queda, e não será possível restaurar a sua visão desse lado,” recitou a enfermeira. Era uma humana idosa, de cabelos grisalhos que a fizeram lembrar de casa.

“Onde está a minha mãe?,” interrompeu Lunapétala, esforçando-se para falar. A sua voz não era mais que um sussurro, e mesmo assim a dor provocada pelo ato era enorme.

“Floragris, criança. Como eu ia dizendo, o seu braço direito também foi gravemente ferido. É improvável que você consiga fazer força com ele, ou sequer escrever. Os nervos fo-”

“Como assim, ocupada? Ela não veio me ver uma vez sequer, segundo a outra enfermeira, nem durante o tempo que passei desacordada”.

A enfermeira a ignorou e encaixou o braço da elfa numa tipóia improvisada.

“Não se mexa muito. Não temos mana suficiente para nos dar ao luxo de regenerar todas as suas feridas com magia… agora que está fora de perigo, deverá esperar seu corpo curar-se naturalmente”.

Lunapétala sentiu o estômago revirar e os olhos arderem, mas tentou se convencer de que era apenas um efeito dos ferimentos, dos gritos de dor ao seu redor, e do ar seco das Cordilheiras.

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O Corvo – Interlúdio

AVIN

AVIN

O frio na barriga era compreensível: essa seria a sua primeira missão a mando da AVIN, e o sucesso garantiria uma posição na Agência Ventobraviana de Inteligência.

A Agência de Inteligência planejava uma grande investida contra a Horda alojada nas Cordilheiras das Torres de Pedra, e o papel de Lunapétala era simples: entrar na  Fortaleza Krom’gar e verificar a extensão do poder bélico inimigo. Número de soldados, poder destrutivo de armas, quantidade de suprimentos… tudo! A AVIN precisava saber contra o quê se preparar, e precisavam dessa informação o mais rápido possível pois os combatentes chegariam à Vila de Cortavento dentro de três dias.

Lunapétala respirou fundo, verificou seus equipamentos novamente, e caminhou para o cais de Ventobravo. Seus pés deveriam pisar no solo de Kalimdor o quanto antes.

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