O Corvo – Capítulo 2

“Sabe o que é dito sobre elfos noturnos que nascem com olhos dourados, criança?”

“São destinados à grandeza, mãe.”

“Precisamente. Os seus olhos tinham um tom dourado durante a sua infância… mas conforme você cresceu isso foi sumindo.”

“Então o meu destino não será mais grandioso?”

“Será se você o fizer, e você deve fazê-lo. Não só pelo seu nome, mas pela família.”

“Sim, mãe”

A verdade, ela imaginava, é que seus olhos nunca tinham sido dourados. Anos de treinamento árduo supervisionado pessoalmente pela matriarca Floragris, e agora suas mãos tremiam. Agradeceu que nenhum aliado estivesse ali para testemunhar seus temores.

Não ser vista parecera simples no papel. Na noite fria da Cordilheira das Torres de Pedra, porém, a presença da Fortaleza Krom’gar era ameaçadora: labaredas erguiam-se dos prédios metálicos, e o zepelim que sobrevoava as construções parecia um sentinela insone.

Lunapétala escondeu-se atrás de uma grande pedra e analisou o desenho do acampamento. Aparentemente, nada havia mudado desde que a Aliança mapeara o local há alguns meses. Os alojamentos e depósitos estavam nos mesmos lugares, e o mesmo número de guardas patrulhava as mesmas rotas. No entanto, era possível notar que os orcs haviam realmente baixado a guarda, talvez graças à escassez de conflitos das últimas semanas: vários sentinelas reuniam-se em volta de uma grande fogueira, jogando cartas e falando alto.

Caminhando pelas sombras, a elfa posicionou-se de modo a ver a entrada para os alojamentos, contando as fileiras de beliches a fim de estimar o número de inimigos na Fortaleza.

As mantícoras da Fortaleza agitaram-se de repente, como se sentissem que havia um intruso por perto. Não era seguro ficar muito tempo parada, então Lunapétala decidiu investigar logo o depósito de armas e suprimentos.

Um guarda, aparentemente bêbado, estava deitado à porta do depósito. Graças ao ronco alto, a elfa pôde saltar por cima dele e não se preocupar com o som dos pés tocando novamente o solo. No entanto, seu sorriso de satisfação desapareceu ao analisar o interior do local.

Caixas e mais caixas de bombas amontoavam-se e cobriam as paredes. Aquilo era armamento suficiente para fazer a Vila de Cortavento sumir do mapa! Será que era para isso que o zepelim havia sido trazido? Mas… se as bombas pudessem ser transportadas no zepelim, Astraanar seria um alvo fácil! A vila já estava sitiada e era um dos últimos refúgios do poder da Aliança em Vale Gris, e sua destruição certamente seria mais vantajosa do que a dominação da Cordilheira das Torres de Pedra!

Lunapétala começou a suar frio. Ela imaginava encontrar armas de fogo e espadas, e talvez algumas poucas bombas a serem manuseadas por um especialista. Isso era pior, muito pior. Era crucial que ela saísse dali e entrasse em contato com a AVIN o mais rápido possível.

Uma risada grossa ecoou pelo depósito, seguida de uma cantoria bêbada. A elfa xingou em silêncio. Em seu choque ao ver as bombas, esquecera de que o local também armazenava suprimentos… e que os guardas pareciam muito chegados a bebida e comida durante as horas de serviço. Ela nem havia notado, ao entrar no depósito, que um orc estava mais adentro! Um erro estúpido que um Brancave jamais deveria ter cometido.

Passos pesados se aproximavam enquanto ela procurava nos bolsos uma das poções de invisibilidade que havia trazido. Seria fácil apagar o orc, mas isso apenas denunciaria a invasão e apressaria os planos de ataque dos inimigos. Ele estava excessivamente bêbado para notá-la entre as sombras, mas seria impossível não vê-la quando passasse logo ao lado.

Com as mãos tremendo graças à adrenalina, a elfa conseguiu beber a poção antes que o orc ficasse próximo demais. Lunapétala prendeu a respiração quando o enorme guarda passou ao seu lado. Sempre mantendo o olhar no inimigo, a elfa começou a dar passos silenciosos para trás enquanto o brutamontes verde cambaleava para fora, até que ela tropeçou em algo e caiu de costas no chão.

Com o barulho, o orc parou de andar e olhou em sua direção. Em pânico, a jovem percebeu que havia tropeçado em um outro que, graças a Eluna, ainda dormia. Aproveitando-se dos últimos segundos de invisibilidade, ela pôs-se de pé e procurou onde se esconder. O orc que havia passado por ela, mesmo bêbado, agora parecia bem alerta. O guarda que antes roncava havia se posto de pé em um momento. Ela não subestimaria seus inimigos novamente.

Decidiu esconder-se entre sacos de grãos. Tão logo havia se camuflado, a invisibilidade concedida pela poção acabou. Lunapétala aguardou, tensa, alguma reação dos guardas que havia alertado com sua queda.

Para sua sorte, o orc que dormia logo à sua frente virou-se e soltou um sonoro ronco. Ela suspirou aliviada quando os dois guardas riram e afastaram-se do depósito.

Minutos passaram como horas enquanto ela esperava algum sinal de nova movimentação. Nenhum. Ainda tensa, Lunapétala moveu-se lentamente em direção à saída. Só queria sair logo dali.

De repente, ela sentiu seu pé sendo agarrado e seu corpo jogado para trás. Seu instinto imediato foi o de sacar as adagas. Ela poderia se livrar do corpo depois. Lunapétala fez o corpo girar no ar e preparou-se para enfiar as adagas no pescoço do orc, mas suas lâminas foram defletidas por uma espada. O som do choque dos metais foi ensurdecedor na noite anteriormente silenciosa. As adagas caíram no chão.

O orc, pondo-se de pé, era enorme. Seus olhos brilhavam com uma fúria sem igual, e Lunapétala não pôde evitar dar um passo para trás. Amedrontada, sua mente ficou em branco.

Ela ouviu o som de inimigos correndo para o depósito, e decidiu virar-se para correr. O orc pareceu não gostar da ideia e começou a atacar a jovem elfa com golpes vigorosos de espada. Ela agradeceu aos céus pela sua agilidade, que a permitia desviar de golpe após golpe.

Achando uma brecha nos ataques do inimigo, Lunapétala escapou do depósito e correu em direção ao penhasco. Durante a subida para a Fortaleza, ela vira enormes pedras cravadas na encosta. Essas pedras poderiam servir de apoio para seus pés ligeiros durante a descida. Se chegasse à Vila de Cortavento a tempo, poderia evacuar o local antes da chegada dos orcs – que certamente atacariam. Com a Vila vazia, eles não esperariam a investida da Aliança.

“Ainda há esperança” foi o último pensamento antes que o orc arremessasse a espada e a lâmina atravessasse o ombro direito da elfa, interrompendo seu equilíbrio e mandando-a penhasco abaixo.

“O seu olho direito foi destruído em algum impacto durante a queda, e não será possível restaurar a sua visão desse lado,” recitou a enfermeira. Era uma humana idosa, de cabelos grisalhos que a fizeram lembrar de casa.

“Onde está a minha mãe?,” interrompeu Lunapétala, esforçando-se para falar. A sua voz não era mais que um sussurro, e mesmo assim a dor provocada pelo ato era enorme.

“Floragris, criança. Como eu ia dizendo, o seu braço direito também foi gravemente ferido. É improvável que você consiga fazer força com ele, ou sequer escrever. Os nervos fo-”

“Como assim, ocupada? Ela não veio me ver uma vez sequer, segundo a outra enfermeira, nem durante o tempo que passei desacordada”.

A enfermeira a ignorou e encaixou o braço da elfa numa tipóia improvisada.

“Não se mexa muito. Não temos mana suficiente para nos dar ao luxo de regenerar todas as suas feridas com magia… agora que está fora de perigo, deverá esperar seu corpo curar-se naturalmente”.

Lunapétala sentiu o estômago revirar e os olhos arderem, mas tentou se convencer de que era apenas um efeito dos ferimentos, dos gritos de dor ao seu redor, e do ar seco das Cordilheiras.

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4 pensamentos sobre “O Corvo – Capítulo 2

  1. ^^ A segunda leitura deste capítulo não fez dele menos empolgante. Você tem o dom da escrita e com certeza uma alma de ladino.

    Estou atento aos capítulos vindouros =]

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